No caminho para a equidade de gênero, as organizações têm focado grande parte de seus esforços na mitigação de barreiras externas, como a discriminação direta ou a lacuna salarial. No entanto, para alcançar uma mudança sistêmica e real, é imperativo voltar o olhar para as barreiras internas: aqueles preconceitos, comportamentos e percepções que, muitas vezes de forma inconsciente, limitam o crescimento profissional das mulheres.
Entendendo o Cenário: Segregação e Equidade
Para falar de empoderamento, primeiro devemos distinguir entre igualdade e equidade. Enquanto a igualdade oferece os mesmos recursos para todos, a equidade de gênero foca em atender aos interesses e necessidades de quem está em desvantagem, buscando uma justiça real baseada na diferença (ONU Mulheres, s.f.).
Na América Latina, essa desvantagem manifesta-se na segregação vertical (dificuldade de acesso a cargos de liderança) e na segregação horizontal, onde as mulheres têm presença mínima em setores tradicionalmente masculinizados, como construção, transporte ou o setor de mineração e energia.
O Peso da Socialização: Por que existem barreiras internas?
Desde a infância, os processos de socialização ditam normas diferenciadas. Essa formação precoce resulta em comportamentos que impactam a vida profissional adulta:
- Aversão ao risco: As mulheres tendem a demonstrar maior cautela, o que pode limitar seu acesso a oportunidades de alto impacto.
- A “Lacuna de Confiança”: Estudos em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) mostram que as mulheres costumam se perceber como menos capazes que seus pares masculinos, apesar de possuírem as mesmas competências (Sterling, A., 2020). Essa falta de autoconfiança é um preditor direto da disparidade salarial.
- Desafios na negociação: Homens iniciam negociações salariais até quatro vezes mais frequentemente que as mulheres, que tendem a adotar estilos de evasão por medo de afetar seus relacionamentos interpessoais (Babcock, L., 2003)
Ferramentas para a Transformação
Como as organizações e os indivíduos podem remover essas barreiras? A mudança exige uma abordagem multidimensional:
- Pela Organização: É vital criar programas de liderança focados em competências socioemocionais, como autoconfiança e comunicação assertiva, além de estabelecer mentorias onde líderes sirvam de exemplo.
- Pelo Papel Individual: As mulheres devem trabalhar na visualização de suas próprias capacidades e no gerenciamento do perfeccionismo (Mohr, T., 2014), enquanto cada pessoa na organização deve questionar seus próprios preconceitos.
- Envolver os Homens na conversa: A equidade não é um “tema de mulheres”. É fundamental que os homens reconheçam seu papel na iniquidade e adotem novas masculinidades ativas, superando o medo do julgamento de seus pares (Sáenz, S., 2020).
O empoderamento feminino não se trata apenas de “colocar” mulheres em posições de poder, mas de transformar a cultura para que o talento não tenha gênero e as barreiras deixem de ser um obstáculo para o sucesso coletivo.
Escrito por: Ana Maria Daly. CEO da ECOS CULTURE. Parceira da Whales



