Durante muito tempo, o bem-estar no trabalho foi tratado como um tema “romântico” ou algo “extra”: ações pontuais, programas isolados ou benefícios vistos como custo. Hoje, essa lógica já não se sustenta. Evidências robustas mostram que o bem-estar dos profissionais é um ativo estratégico, diretamente conectado à performance organizacional, à produtividade sustentável e à geração de valor no longo prazo.
Pesquisas lideradas pelo professor Jan-Emmanuel De Neve, da Universidade de Oxford, referência mundial em estudos sobre bem-estar e economia, demonstram de forma consistente que empresas com profissionais mais felizes e saudáveis performam melhor. Novamente, não se trata de uma visão romântica, mas de dados concretos que conectam bem-estar, engajamento e resultados financeiros.
O que a ciência já comprovou
Estudos conduzidos pelo Wellbeing Research Centre, indicam que profissionais com níveis mais elevados de bem-estar apresentam, em média:
- Maior produtividade (até 13% a mais em tarefas cognitivas);
- Menor absenteísmo e presenteísmo;
- Redução significativa de turnover;
- Mais colaboração, criatividade, inovação e qualidade na tomada de decisão.
De Neve reforça que o bem-estar atua como um habilitador de performance, e não como consequência dela. Ou seja: pessoas não performam melhor porque a empresa vai bem; muitas vezes, a empresa vai bem porque as pessoas estão bem.
Bem-estar não é só saúde mental (mas passa por ela)
Quando falamos de bem-estar no trabalho, estamos tratando de um conceito multidimensional. Precisamos falar também de: saúde mental e emocional, relações de confiança e pertencimento dentro das empresas, senso de propósito e significado no trabalho, autonomia e capacidade de influência, bem como de condições adequadas para desempenhar bem o papel profissional.
O bem-estar que gera resultado é sistêmico, integrado à forma como a organização lidera, decide e opera.
A conexão direta com a estratégia do negócio
Um dos pontos centrais defendidos por De Neve é que bem-estar precisa estar conectado à estratégia, e não restrito ao RH. Organizações mais maduras nesse tema:
- Incorporam indicadores de bem-estar aos seus KPIs estratégicos;
- Conectam clima, engajamento e saúde aos indicadores de performance e resultados financeiros;
- Desenvolvem líderes capazes de criar ambientes psicologicamente seguros;
- Tomam decisões considerando o impacto humano e não apenas o impacto econômico de curto prazo.
Essa abordagem fortalece a sustentabilidade do negócio, especialmente em contextos de alta complexidade, transformação digital e escassez de talentos.
O papel da liderança
Nenhuma estratégia de bem-estar se sustenta sem liderança. Estudos mostram que a qualidade da relação com o líder direto é um dos fatores que mais influenciam o bem-estar no trabalho. Líderes preparados comunicam com clareza e empática e criam espaços seguros para diálogo e aprendizagem.
Investir no desenvolvimento de líderes é, portanto, uma das formas mais eficazes de gerar impacto real no bem-estar — e, consequentemente, nos resultados do negócio.
Bem-estar como vantagem competitiva
Empresas que entendem essa conexão saem na frente. Elas atraem e retêm talentos, constroem marcas empregadoras fortes e apresentam maior resiliência em cenários de crise. Como reforça o professor De Neve, o bem-estar deixou de ser apenas um tema de responsabilidade social e passou a ser um diferencial competitivo mensurável.
Por Aline Viollini – Executiva de Recursos Humanos e co-criadora da Formação de Embaixadores de Saúde Mental nas Organizações



